1) Histórico
A proposta de trabalho com Projetos dentro da grade curricular surgiu na Escola da Vila em 1998, influenciada pelas mudanças propostas pela LDB e pelas diretrizes curriculares para o Ensino Médio.
Em seu primeiro ano, foram oferecidos aos alunos do 1o e do 2o ano três cursos, coordenados por professores que não faziam parte da equipe regular da escola: Sociedade e Cultura, Códigos e Linguagem e Ciência e Tecnologia. A carga de cada curso era de três aulas semanais. O aluno optava por uma área e permanecia no curso até o final do semestre, a partir do qual podia iniciar um novo curso. Tínhamos como objetivos centrais a diversificação das metodologias de ensino e o ensaio com novas formas de organização curricular, que poderiam mais tarde nos dar subsídios para uma reflexão sobre os próprios cursos disciplinares. Em 1999, a estrutura dos três cursos (agora anuais) se manteve, sendo ainda cada um coordenado por um professor. Dois deles lecionavam também uma disciplina, participando das outras atividades do ciclo. Nesse ano, nos cursos de Sociologia do Trabalho, Cinema e Vídeo e Tecnologia de Alimentos, os alunos assistiam aulas com temas de interesse comum e formavam pequenos grupos para investigar um subtema ou desenvolver um trabalho prático.
A avaliação feita no final de 1999 indicou a necessidade de se criar, em 2000, uma nova organização dos Projetos que permitisse aos alunos manter contato com professores de todas as áreas e integrasse esses professores entre si num planejamento comum. Os professores de Biologia, Física, Geografia, História e Química iniciaram o curso em fevereiro. Nas duas primeiras semanas (que chamamos de Etapa de Sensibilização), foi realizada uma saída a campo para diferentes locais da cidade e foram socializados os registros desse trabalho, lançando aos alunos o tema central do Projeto: A Vida Urbana no Século 21. Em uma segunda etapa (com duração de doze semanas), foram desenvolvidos os Cursos Temáticos, cuja intenção era apresentar aos alunos as diversas possibilidades de pesquisas dentro do tema central e a partir dos conhecimentos disciplinares. Os alunos foram mantidos no grupo-classe original e os professores se revezavam pelas quatro salas desenvolvendo os Cursos Temáticos que auxiliariam os alunos na escolha de um tema de pesquisa individual, a ser desenvolvido no segundo semestre. Cada professor teve quatro aulas (de 75 minutos) para esta apresentação, que contou também com a participação do professor de Artes, o sexto integrante da equipe dos Projetos. Os cursos temáticos tinham o objetivo de apoiar o processo de escolha do tema, mas também correspondia a intenção da equipe de professores de garantir um número mínimo de conteúdos para todos os alunos já que a partir desta etapa, cada um deles iria se aprofundar em um aspecto do tema central. Em fins de maio, os alunos iniciaram a elaboração de seus projetos individuais e a partir de agosto foram divididos em grupos compostos por no máximo 16 alunos com um professor-orientador. Foram realizadas 17 aulas (de 150 minutos) com esses grupos para que cada aluno chegasse ao produto final planejado.
Durante o mês de novembro os alunos planejaram uma apresentação de seus produtos. Entre outros méritos, esta apresentação pôde mostrar aos alunos que não tiveram o envolvimento esperado as possibilidades de realização, dentro do contexto escolar e com a orientação devida, de um estudo de seu interesse pessoal. Dali surgiu a constatação de que a experiência advinda da participação nos projetos tinha grande potencial para a construção da autonomia e surgiu então a expectativa de os alunos se tornarem mais responsáveis pelos seus projetos no ano seguinte.
A principal conclusão da avaliação realizada ao final de 2000 foi a necessidade de reconhecer cada vez mais para nós mesmos e tentar ensinar aos alunos que o processo é o principal produto, não dando mais valor aos alunos que apresentaram a monografia do que àqueles que não chegaram a um produto final bem acabado mas aprenderam muito com a pesquisa. Afinal, o conhecimento leva também a dúvidas, não apenas a certezas. Além disso, o enfrentamento de uma proposta que requer autonomia para o trabalho pode ser frustrante, no que se refere a seu término, no entanto, o processo vivido pode ser fonte de reflexão para o auto-conhecimento e para a revisão das posturas e procedimentos adotados pelo aluno no decorrer do mesmo.
Em 2001, ainda com o tema central Vida Urbana no Século 21, decidimos pela manutenção e o aprofundamento do caráter não-disciplinar e individual dos projetos de pesquisa, que são as características principais desta atividade. A equipe de educadores responsáveis pelos Projetos passou a ser formada pelos professores de Geografia, História, LPL e Química, ao tomarmos a decisão de tornar os Projetos uma atividade exclusiva do 2ª ano. Foram excluídos do planejamento os Cursos Temáticos para dar mais liberdade aos alunos na escolha das pesquisas e evitar o surgimento de projetos estereotipados (derivados diretamente destes Cursos apenas para agradar ao professor). A preocupação com os conteúdos mínimos iguais para todosfoi minimizada. Também pesou nesta decisão a avaliação de que os alunos deveriam iniciar a sua escolha e pesquisa individual ainda no primeiro semestre. Procurou-se intensificar nesse ano a realização de trabalhos de campo e manter a apresentação dos trabalhos no final do ano.
Para melhor integrar alunos, orientadores e conhecimentos disciplinares, foram criados oito subtemas ligados ao tema central, a saber: Patrimônio Cultural, Movimentos Sociais, Poluição, Consumo e Qualidade de Vida, Ocupação Urbana, Urbanismo, Semiótica Urbana e Mídia. Também foram sugeridas sete metodologias: Entrevista, Revisão Bibliográfica, Experimentação, Análise de Dados Estatísticos, Análise de Documentos Oficiais, Coleta e Análise de Documentos em Arquivo Histórico e Observação Participante.
Para criar mecanismos mais eficientes de apoio e controle da produção, aumentando o compromisso dos alunos com o trabalho ao deixá-lo bem configurado, foram estabelecidos prazos mais claros desde o início do ano e a nota semestral do Projeto foi dividida igualmente por quatro produções: Relatório Parcial 1, Relatório Parcial 2 , Monografia e Apresentação Oral.
No segundo semestre do ano 2001, após a conclusão das monografias, os alunos se reagruparam, segundo as afinidades entre os subtemas pesquisados, com o objetivo que compor sítios correlacionados para a Internet, atividade que foi desenvolvida até o final do período letivo.
Avaliamos que a delimitação de uma questão adequada, que traga em si a potencialidade de suscitar reflexões significativas e uma inserção orgânica no tema mais amplo, se mostrou uma tarefa bastante difícil para os alunos do nível médio.
Desta experiência, propusemos uma alteração em 2002 para a etapa de definição das questões. Iniciamos o trabalho com atividades (leituras e saídas a campo) que levassem os alunos a uma imersão no tema gerador, que permanece ainda a Vida Urbana no Século 21, e a identificar as possibilidades de pesquisa. Em seguida, por meio de trabalhos em grupos e debates, procuramos levantar junto com os alunos as principais preocupações e necessidades de quem vive na cidade ou no campo, o que possibilitou aos professores compor uma lista dos possíveis subtemas a serem estudados, dentre eles: Urbanização e Conflito Social,Espaço público e cidadania,Fluxos e Distribuição de Renda,Consumo e Qualidade de Vida, Sustentabilidade, Meios de Informação e Comunicação, Linguagem Urbana e Produção Cultural. Mais tarde, estes subtemas foram subdivididos, levando a assuntos mais delimitados dos quais, finalmente, derivariam as questões. Os assuntos levantados foram: Educação, Violência e Segurança, Patrimônio Cultural, Áreas de Lazer, Distribuição de Renda, Fluxos Urbanos, Lixo e Reciclagem, Despoluição Ambiental, Doenças Urbanas, Distúrbios Alimentares, Drogas, Alimentos Transgênicos, Terapias Alternativas, Cidades Sustentáveis, Agricultura Sustentável, Gestão de Recursos Naturais, Informática e Telefonia, Poluição Visual, Semiótica Urbana, Arte na Rua.
Em uma nova etapa de trabalhos junto com os professores, os alunos discutiram tais assuntos e apontaram os conceitos e os fatos que precisariam ser mais bem estudados para um entendimento da problemática trazida por cada subtema. Partindo de uma grande lista produzida, os professores compuseram cerca de cem questões que seriam posteriormente submetidas à escolha dos setenta alunos que participam do projeto neste ano. Julgamos que desta forma, compartilhando as escolhas temáticas, e as questões para investigação, se atendeu melhor à necessidade de adequação às características da faixa etária, garantiu-se um tempo maior para cada aluno realizar sua pesquisa e elaboração da monografia, além de se garantir a co-autoria do grupo de alunos.
Atualmente, o trabalho se encontra na fase inicial de redação, após cerca de três meses de pesquisa, leitura e entrevistas. Depois da conclusão da monografia, no final de agosto, os alunos darão início à realização dos sítios para a Internet.
2) Por que Projetos no Ensino Médio?
Achar um problema para investigar é algo bastante difícil. Vale a pena ver o que dizem alguns autores sobre esta questão.
O problema da pesquisa é um problema! Pois a mente humana é, em geral, bastante sábia para não se inquietar inutilmente. O que mobiliza a mente humana são problemas, ou seja, a busca de maior entendimento de questões postas pelo real, ou ainda a busca de soluções para problemas nele existentes, tendo em vista a sua modificação para melhor. ( Laville, Cristian e Dionne, Jean A Construção do Saber - Manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas Artes Médicas)
A escolha de um tema digno de estudo depende de critérios de seleção que, quando aplicados, resultem em um tema que: corresponda ao gosto e interesse do pesquisador-aluno; propicie experiências duráveis e de grande valor para o pesquisador-aluno; possua importância teórica e, principalmente, prática; corresponda às possibilidades de tempo, fontes e entendimento do pesquisador-aluno; seja viável em termos de levantamento de dados e informações. (Tachiawa, Takeshy e Mendes, Gildásio Como fazer Monografia na prática, Ed.Fundação Getúlio Vargas.)
Trata-se então da escolha de um tema de pesquisa que seja, ao mesmo tempo, autêntico e mobilizador, significativo e exeqüível. Partindo disso, é certo que o trabalho com Projetos de Investigação, que logo de início propõe ao aluno que escolha algo para estudar, possibilita o desenvolvimento de habilidades e conceitos que os cursos disciplinares nem sempre contemplam. A escolha dos temas de interesse, e depois, os procedimentos de levantamento de dados e a reflexão sobre situações complexas são, nesse sentido, estratégias muito valiosas. Aprender é uma tarefa pessoal e as atividades propostas no projeto são apenas um ponto de partida, que deve proporcionar ao aluno os instrumentos para um trabalho criativo e intenso de aprendizagem. O saber constitui-se pela capacidade de reflexão, esta por sua vez exige uma série de informações, que nesse propósito, de fato ambicioso, são pesquisadas, registradas, articuladas, confrontadas com concepções prévias, socializadas e referidas a um amplo contexto: os problemas e as soluções de alguém que vive na cidade grande, tal como o aluno.
Em suma, o principal objetivo dos Projetos de Investigação é permitir a análise de uma situação complexa da realidade através da construção coletiva de conhecimentos. O tema Vida Urbana no século 21 justifica-se por sua amplitude e relevância no mundo de hoje; tratar da vida urbana possibilita analisar, interpretar e interferir num problema significativo para todos nós cidadãos moradores de uma das metrópoles mais importantes da América Latina.
Um projeto não precisa ser desconectado da programação das disciplinas, podendo ser proposto juntamente com os alunos, a fim de intensificar o processo de aprendizagem dos conteúdos e, principalmente, possibilitar diversificação de ações e vivências que venham propiciar o desenvolvimento das diferentes competências, tais como: aprender a investigar, elaborar propostas, dominar linguagens, articular informações e conhecimentos, solucionar problemas e trabalhar em grupo.
Os seguintes aspectos do trabalho com Projetos de Investigação recolocam sua importância como estratégia didática:
a) Abordagem Interdisciplinar por mais que haja mudanças nas propostas para o EM ainda é necessário que o currículo tenha ênfase disciplinar, seja em função dos exames vestibulares, seja em função do peso da tradição dos livros, da formação de professores, da expectativa familiar etc. Os projetos por sua vez permitem que a escola seja mais ousada e faça de fato uma abordagem interdisciplinar, integrando diferentes pontos de vista na análise de fenômenos e buscando um enfoque globalizante e menos fragmentada por parte do aluno.
b) Contextualização na realidade Vincular os conteúdos do que se está aprendendo às questões da realidade torna a aprendizagem mais significativa, diminui a separação entre teoria e prática e permite que os alunos possam desenvolver trabalhos de campo e intervenções integradas à produção de conhecimento e fortalecimento de sua formação intelectual. Esta articulação pode também aproximar o aluno do mundo do trabalho de modo que ele possa progressivamente entender as demandas profissionais que enfrentará num futuro próximo.
c) Investigação O trabalho com projetos depende mais do aluno do que dos professores na medida em que ele deve assumir a responsabilidade sobre sua aprendizagem. Ë o momento da escolaridade em que se deve recuperar a mesma energia do aluno da educação infantil que aprende sem ninguém ensinar, apenas porque investiga o mundo. Os projetos permitem que os alunos aprendam a investigar com método e obtenham assim resultados organizados e conhecimentos consistentes que possam ser socializados na comunidade escolar. Do mesmo modo a investigação permite que o aluno realize escolhas,, faça recortes epistemológicos e elabore conhecimentos que lhe interessam diretamente. Essas conquistas são extremamente formativas para a vida acadêmica que se aproxima.
d) Cidadania De nada adianta a escola realizar um discurso vazio que forma um aluno crítico e participativo, um legítimo cidadão se não oferecer a ele ferramentas potentes para a compreensão da realidade e para participação efetiva nela. O currículo regular do Ensino Médio dificilmente favorece estas conquistas.