Para Duda Mendonça, Lula é a esperança (*)

 

 

A campanha do PT para a sucessão presidencial será emocional. Vai valorizar a esperança de justiça social que Lula (Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do partido) representa para o povo brasileiro. A afirmação é do publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha petista, que participou em Brasília de seminário de comunicação realizado no último final de semana. Pouco antes do evento, em entrevista exclusiva ao Informes, o marqueteiro elogiou o amadurecimento do partido, ressaltou importância da militância e explicou que, além de garantir os votos que o PT já tem, é preciso conquistar os indecisos. Duda também revelou seu lado místico ao considerar que "o universo conspira a favor do PT", a começar pelas datas da eleição: o primeiro turno será dia 6 de outubro, data em que foi registrado o nascimento de Lula; o segundo acontece em 27 do mesmo mês, dia em que o petista realmente nasceu.

Informes PT - O que o fez aceitar o desafio de eleger Lula presidente?
Duda Mendonça - Algumas coisas. Poucas pessoas sabem da minha história. Sou um baiano que foi proibido de estudar na Bahia, tive que deixar a universidade pela metade por ter integrado diretório estudantil e por ter participado de passeatas na época da ditadura. Filho de pai artista, sou de origem modesta e, apesar de ter batalhado muito para vencer, fiz muitas campanhas de graça para a oposição no meu estado, em algumas até paguei para ver. Mas me decepcionei fazendo campanha na Bahia pela atitude de um ministro da oposição, não do PT (quem lê meu livro sabe do episódio), e decidi ser profissional, ganhar dinheiro. Foi aí que aceitei fazer a campanha do Paulo Maluf para o governo de São Paulo. Eu sou movido a desafios. Queria ser aquele cara que elegeu o candidato que ninguém nunca elegeu. Queria colocar o meu talento em xeque.

Informes - Então sua ligação com a oposição não é só profissional?
Duda - Não, minha história política é de oposição. Conheci o presidente do partido, deputado José Dirceu (SP), quando meu primo ficou exilado com ele em Cuba. Outro primo meu ficou preso junto com o deputado José Genoino (PT-SP). Eu também já fiz campanha de graça para os deputados Genoino e Aloizio Mercadante (PT-SP), e para o governador do Acre, Jorge Viana (PT). Fiz ainda a preço camarada a última campanha do prefeito de Ribeirão Preto (SP), Antonio Palocci (PT). Isso pouco gente sabe. Na verdade, quando faço uma campanha para o PT sou movido por duas coisa básicas: amor e desafio. Então eu não poderia encerrar a minha carreira sem tentar eleger Lula presidente. Eu acredito que, com uma campanha mais profissional, a gente tem chance de ganhar.

Informes - E existe fórmula mágica para ganhar eleições?
Duda - Não. Para obter a vitória é necessária uma soma de fatores. A coisa mais importante de uma campanha não é nem o candidato. É o momento político. Se o momento ajuda e o candidato é bom, aí a coisa vai. Agora, mesmo com um candidato bom, não tem jeito se o momento político não ajudar. O Lula, por exemplo, foi vencido nas duas últimas eleições por um plano econômico, não pelo candidato Fernando Henrique Cardoso.

Informes - 2002 é o momento político do Lula?
Duda - Eu acredito que desta vez as coisas estão ajudando. Estamos navegando com o vento a favor. Vamos ter uma campanha mais profissional. O Lula está mais preocupado com a sua imagem e está levando a campanha mais a sério. Também o PT está mais maduro.

Informes - A verticalização das coligações altera a campanha de Lula?
Duda - Está nas mãos de Deus. Se por um lado prejudica, por outro ajuda. O que eu queria mesmo era ter um pouco mais de tempo no horário eleitoral gratuito, porque com o quadro que está colocado o PT vai ter pouco espaço em relação ao tempo do governo. E isso prejudica.

Informes - Alianças com outros partidos ajudariam?
Duda - Com certeza, pois com coligação teríamos mais tempo de TV para fazer frente ao espaço do candidato do PSDB, José Serra, que tem mais que o dobro do tempo do Lula. E precisamos de espaço para falar do nosso projeto para o governo, para explicar e muitas vezes para defender. É muita coisa para ser falada em pouco tempo, e isso é complicado.

Informes - O que muda nesta campanha em relação às anteriores?

Duda - É chato falar do trabalho dos outros. O que posso dizer é que as mudanças serão basicamente na forma de o PT se comunicar. Na verdade o partido não tem grandes problemas de marketing. Ele tem é de propaganda. Não é o que diz, é como se diz. E é nisso que eu posso ajudar e acredito que já estou ajudando. Quem viu os últimos programas do PT deve ter percebido. Estamos colocando emoção na campanha. As coisas estão mais organizadas. Em TV é preciso ter começo, meio e fim. O brasileiro está acostumado com qualidade na televisão e, se a propaganda política não tem qualidade compatível, a idéia que passa é que o PT não sabe nem fazer programa de TV. Veja bem, não é quem já torce pelo partido. Esse vai torcer de qualquer jeito, mas a gente tem que alargar, crescer, caso contrário só chegaremos onde o PT sempre chegou, no segundo turno.

Informes - E como fazer para conquistar os indecisos?
Duda - De diversas formas. Umas explícitas, outras não. A TV e o rádio, por exemplo, são veículos fundamentais pelo seu alcance. Um minuto de propaganda na televisão vale mais que uma página inteira de jornal.

Informes - Como combater o terrorismo do mercado financeiro, que faz previsões sombrias a cada pesquisa em que Lula sobe?
Duda - Os adversários têm o direito de espernear. Cabe a eles fazer o que estão fazendo e cabe a nós encontrarmos o antídoto. Esta é uma eleição em que o Lula representa a esperança e o medo. O nosso trabalho será diminuir o medo e aumentar a esperança.

Informes -Vai dar certo?
Duda - Não sei se vai dar para ganhar, mas estou torcendo e apostando nisso. Tudo vai depender do quadro, do momento político. Eu acredito que Deus tem que ajudar uma hora.

Informes - E a estratégia será mesclar a imagem e a ideologia já consolidadas com uma postura mais light?
Duda - Eu discordo muito desta afirmação do Lula light. Estou colocando na TV o Lula verdadeiro, feliz, engraçado e inteligente que eles nunca mostraram. Não tem uma única palavra que não seja dele. Se hoje o Lula está de paletó é porque ele gosta. Em um dos próximos programas vou mostrar que ele usou terno e gravata na sua posse no sindicato do ABC paulista. Então, na verdade, não se está fazendo Lula light nenhum. O que mudou foi a forma de o PT se comunicar. Para você dizer as coisas não precisa gritar e fazer cara de bravo. As mensagens políticas podem ser passadas até mesmo através de músicas. Então, acredito que não vou ter dificuldades. É possível conciliar isso. Na campanha passada muitos candidatos petistas tiraram a estrela da propaganda ou a colocaram bem pequenina. Eu não. Vou fazer da estrela a grande vedete da campanha. Acredito que a militância vai gostar da publicidade do partido. A gente quer conquistar votos, mas a primeira etapa é garantir o que a gente já tem. Nisso estou bem atento.

Informes - Quais são os principais defeitos dos prováveis adversários de Lula?
Duda - Não estou preocupado com o perfil (qualidades e defeitos) de cada um deles. Não faço campanha contra, faço a favor. Então pouco importa quem será o adversário. Sou estilo Felipão (Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira), que não está preocupado com os times adversários na Copa. A preocupação é formar um time bom, arrumado e preparado para ganhar. Quem quer vencer não olha quem é o adversário. Se não posso escolher este ou aquele tenho de me preocupar com o programa, em colocar um Lula calmo, fazendo um discurso tranqüilo e emocional. O adversário vai ser quem Deus quiser. Acho que está na hora de Deus ajudar o PT.

Informes - E como um candidato que não conta com o apoio da mídia, da máquina administrativa e do poder econômico vence uma eleição?
Duda - O PT tem experiência administrativa. Atualmente ele governa cinco estados e várias prefeituras. De cada cinco brasileiros, um mora em cidade governada pelo PT. O partido também tem uma militância valente, que vai às ruas com entusiasmo. Um militante petista vale mais que 10 cabos eleitorais pagos. Essa força e esse idealismo fazem a diferença. O momento político também é muito bom, e a mídia tem tratado o Lula com imparcialidade.

(*) Entrevista publicada em Informes, publicação do Partido dos Trabalhadores

 

Voltar