Análise Crítica da 25ª Bienal de São Paulo

O negócio das artes hoje passa por um momento marcado pelas mega exposições. Esse tipo de mostra de artes plásticas surge no Brasil no final dos anos 80 com as leis de incentivo cultural. Havia nessas leis a intenção de incentivar eventos culturais no país e portanto o contato deles com um público que normalmente não teria acesso normalmente. As leis de incentivo cultural significaram, basicamente, o seguinte: os contribuintes passaram a poder deduzir parte dos impostos para investir em cultura, assim, surgiu no país o “marketing cultural” e produtos culturais e eventos passaram a ser oferecidos às empresas por todos os lados, de modo que estas ofereceriam patrocínio através da isenção do pagamento de impostos.

Com o surgimento desse “marketing cultural” houve um aparecimento de novas galerias, museus e instituições ligadas às artes plásticas e por isso as atividades artísticas no país sofreram uma verdadeira reviravolta. Assim, os projetos culturais passaram a fazer parte do meio privado, pois deixaram de ser considerados pelos empresários investimentos perdidos, pelo contrário, agora são tratados por estes como grandes investimentos, uma mercadoria, cujo o retorno é avaliado em termos quantitativos e não qualitativos, isto é, pelo volume de seu público. Surge aí o fenômeno das mega exposições de arte, que tem por objetivo atrair a maior quantidade de pessoas possível e para isso se utilizam de cenários espetaculares e muita, muita publicidade.

Há quem critique e quem seja a favor desse tipo de exposição, os que são contra alegam ser esta uma postura alienada e excessivamente otimista das exposições de arte. Os que defendem dizem que esse tipo de exposição é positiva pois proporciona um contato do grande público com as artes.

Hoje, a Bienal de São Paulo não foge a essa tendência mesmo sendo uma mostra tradicional da cidade criada em 1951. Seu propósito sempre foi apresentar um panorama mais ou menos completo da arte contemporânea no Brasil e no mundo, a bienal deste ano tem esse propósito mais claro ainda do que as outras pois dispensou o núcleo histórico, que tradicionalmente tinha artistas já consagrados da arte moderna apresentados de forma didática. É uma exposição-monstro que atinge a um público, em média, de 185.208 pessoas (média aritmética dos públicos da 1ª à 24ª Bienal).

O público dessa 25ª Bienal foi, entretanto, muito maior do que essa média: a Bienal se encerrou no dia 2 de junho de 2002 e no final de maio o público já era de 668.428 visitantes. O principal responsável por esse grande público foi a ação do departamento de arte-educação da exposição. Mais da metade do público foi de estudantes que foram visitar a mostra por meio de visitas monitoradas (veja no gráfico 1) organizadas pelas arte educadoras Mirian Celeste Martins e Gisa Picosque.

GRÁFICO 1: Participação da ação educativa no público da 25ª Bienal de São Paulo

Desses 350 mil alunos que visitaram a 25ª Bienal de São Paulo cerca de 220.000 pertencem a escolas públicas e os outros 130.000 a escolas particulares. O volume grande das visitas das escolas públicas à bienal é resultante de uma parceria entre a Secretaria Estadual da Educação e a Fundação Bienal de São Paulo, que promove a compra de ingressos subsidiados e visitas monitoradas de estudantes e professores. Para o presidente da Fundação, Carlos Bratke, essa parceria é importante para o sucesso da exposição: “Considero o programa social um dos trabalhos mais importantes da 25ª Bienal”, “A Bienal leva esses jovens a refletir e ter um olhar mais crítico sobre a vida e sobre o futuro”.

Diariamente, uma média de 3.500 alunos visitaram a mostra em visitas monitoradas que duravam cerca de 1h30 e outros 5.000 assistiam a um vídeo de 20 minutos e depois circulavam à vontade com o professor pela exposição.

Para a arte-educadora Mirian as visitas monitoradas são importantes pois ajudam o público a entender as obras. Com esse objetivo, ao organizar as visitas, ela cuida de três grupos participantes: monitores (dos quais a bienal tinha apenas 94 para atender 3.500 alunos por dia por causa da verba curta destinada à Ação Educativa), professores das escolas e alunos, e a bienal fornece material didático sobre a exposição para todos eles.

Mesmo com esse esforço de fazer com que o público entenda o que está sendo mostrado por parte da organização das mega exposições o verdadeiro problema desse tipo de mostra é o próprio público que garante sucesso e retorno à exposição e seus patrocinadores. Será mesmo que vídeos de 20 minutos e monitores que funcionam como verdadeiras bulas para as obras falando sobre o tema da bienal (a metrópole) e sua ligação com as obras expostas e fornecendo interpretações prontas e mastigadas de cada obra para os alunos de forma acelerada (por causa do tempo curto da visita e do tamanho grande da mostra) ajudam o maior público da bienal, estudantes da rede pública, a estabelecerem qualquer vínculo inteligível com as obras expostas e refletirem sobre as propostas dos artistas? Será que estas propostas podem ser reconhecidas nas obras?

Durante a pesquisa, foram encontrados depoimentos de alunos da escola particular Escola Técnica Getúlio Vargas, de São Paulo, sobre sua visita à bienal9. A aluna do Ensino Médio Sandra Gabriela de Matos, de 15 anos, diz: “A arte aqui é mais reflexiva e não como os quadros do Monet, por exemplo, que são mais contemplativos”, diz também que gostou da exposição, mas que gosta mesmo é de arte acadêmica: “Quanto mais acadêmico melhor, mas adorei a Bienal porque consegui encaixar perfeitamente as idéias dos artistas no meu cotidiano, na minha vida”.

É preciso observar que essa compreensão por parte da aluna provém de cerca de seis aulas que os alunos tiveram, entre seminários e pesquisas, sobre as obras da 25ª Bienal. E, além disso, de um conhecimento que ela têm sobre história da arte, como podemos perceber pelas suas falas. Não será uma visita monitorada às pressas ou um vídeo que resolverá o problema da não compreensão das obras, e sim um trabalho desenvolvido em sala de aula não apenas sobre a exposição, mas também sobre a história da arte em geral.

Em outro artigo sobre a 25ª Bienal de São Paulo foram encontrados depoimentos de visitantes que foram à exposição por conta própria, desligados das visitas monitoradas e não mais estudantes. Segundo a matéria a maioria dos visitantes apreciou o potencial para diversão da bienal, mas não entendeu o sentido das obras.

Segundo a mesma matéria os visitantes sentiram falta de textos explicativos ao lado das obras, como disseram Odile Rezende, dentista de 29 anos e Luciana franco, advogada também de 29: “Nas vídeo artes não entendemos nada”, disse Odile e “Gostaríamos de saber o que eles querem passar”, disse Luciana. Para a universitária Cibele Nicolas, de 20 anos, a obra Cárcere da Ilusão da boliviana Raquel Schwartz (jaula com espelho no chão e no teto cercada de grades cobertas com pelúcia cor-de-rosa) não faz nenhum sentido mas “dá uma sensação de infinito olhar múltiplas imagens calçando um par de pantufas”.

Para este público as obras não fizeram outra coisa a não ser despertar sensações e sentidos, reflexões sobre arte ou a metrópole não tiveram muito espaço, apesar de haverem algumas pessoas interessadas em acompanhar as propostas. E as telas abstratas chamaram bem menos atenção que as instalações.

A arte contemporânea e o público das mega exposições

A arte contemporânea têm suas raízes principalmente em dois artistas de períodos distintos: Marcel Duchamp e Andy Warhol.

O que em Duchamp de certa forma inspira a arte contemporânea atual é justamente esta busca pela idéia. Para Duchamp, a concepção de obra de arte era mais importante do que a própria obras, por isso, em 1913, criou a nova forma de arte chamada ready-mades: eram objetos já prontos e que fazem parte do cotidiano, ele os colocava em instituições artísticas e dizia que aquilo era arte, dessa maneira Duchamp - intencionalmente ou não - questiona o conceito de arte pois levanta a questão de que o valor de um objeto como artístico ou não está no objeto em si, mas nas instituições que o classificam como arte.

Marcel Duchamp influenciou diretamente a pop art americana dos anos 60, gênero do qual Andy Worhol faz parte. A pop art significou a aproximação da arte e da cultura de massas: Andy Worhol, seu representante mais famoso, se utilizava de elementos da cultura de massas e do mercado, como ícones do cinema americano e embalagens de produtos para realizar suas obras.

Marcel Duchamp, Fonte -1917/1964

Readymade: urinol de porcelana, 23,5 X 18 cm, altura de 60 cm

Milão, Coleção de Arturo Schwarz

Marcel Duchamp, Roda de Bicicleta -1913

Readymade: roda de bicicleta, diâmetro 64,8 cm, montada sobre um banco, 60,2 cm de altura

Milão, Coleção de Arturo Schwarz

Andy Warhol, Dípico de Marilyn -1962

Acrílico sobre Tela

Dois painéis de 205,4 X144,8 cm

Tate Gallery

Andy Warhol, Caixa de Sabão Brillo -1964

Polímero sintético e silkscreen sobre madeira 43,2 X 43,2 X 35,6 cm

Coleção Particular

A arte contemporânea aparece como sucessora imediata do modernismo e como resposta às modalidades tradicionais da arte, pintura e escultura, que se esgotam. Os trabalhos hoje se utilizam de diversas modalidades como informática, instalação, vídeo, performances, intervenções na natureza etc., e podem as misturar em um só trabalho com as modalidades tradicionais. Explorando a todo momento novas técnicas e meios, a arte contemporânea está constantemente investigando e explorando si mesma, por isso mesmo que suas raízes estão na pop art e em Marcel Duchamp, pois estes discutem a definição de arte e sua aproximação com a vida.

A arte contemporânea, justamente por ser contemporânea, é algo em processo, assim, cada trabalho é um descontentamento com a própria arte, pois o artista prefere produzir mais e apagar cada vez mais o limite entre a arte e vida. Por isso cada obra traz em si uma questão sobre a própria noção de arte.

Para Frederico Morais, a arte contemporânea se aproxima de tal maneira da vida que o conceito de obra hoje é inconcebível. Segundo ele a arte hoje não passa de uma situação, um acontecimento, um processo. O artista não cria obras para serem contempladas, mas propões situações a serem vivenciadas pelo espectador. O artista contemporâneo cria um estado de tensão e desconfiança, uma expectativa constante para o espectador, tudo pode transformar-se em arte a qualquer momento. Por isso, diante dessa arte o espectador não pode ser passivo (o trabalho o provoca), tem que aguçar seus sentidos (as novas técnicas exploradas permitem a estimulação de todos os sentidos do espectador, e não mas apenas a visão) e tomar iniciativa em relação à obra.

A maioria deste público em questão têm pouco conhecimento sobre arte contemporânea e história da arte (inclusive pelo fato de o Brasil ter passado para a era das grandes exposições-espetáculo sem antes passar por uma fase de consolidação de museus com exposições educativas sobre arte, e a retirada do Núcleo Histórico da Bienal também dificulta ainda mais o entendimento das obras de arte contemporânea do resto da mostra, pois este trazia sempre artistas que serviam como referência e elemento para comparação para o público). Dessa maneira fica quase impossível visitar uma exposição de arte contemporânea, pois esta trata justamente dela mesma (quando se trata de arte, conteúdo é forma).

Será que as questões levantadas pelos trabalhos sobre o conceito de arte atingem o público de alguma maneira? E será que as próprias obras são acessíveis a esse público despreparado e deslocado de discussões sobre arte contemporânea?

A relação entre público e exposição deve estar bem estreitada e firme para que a mostra tenha algum ou qualquer efeito social, caso contrário, o otimismo de Carlos Bratke ao falar que acredita que a Ação Educativa em conjunto com a exposição em si causam alguma reflexão crítica sobre a vida e o futuro no público é equivocado e a exposição carece de uma função social, característica legitimadora do evento já que seu maior público é de jovens estudantes de classes sociais desfavorecidas.

Daniel Acosta
Lina Kim
Vanessa Beecroft
Arthur Lescher
Carmela Gross