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Função Social da Arte na 25ª Bienal de São Paulo
A partir das análises e dos
dados sobre o público da Bienal pude concluir que não há nas obras da
25ª Bienal de São Paulo nenhuma função social, muitas têm sim uma intenção
ou preocupação, mas falham na tentativa de se comunicar com o público.
Muitas obras, ainda, não têm qualquer preocupação social e são completamente
vazias e sem sentido para a grande maioria dos visitantes, mas sua presença
na mostra é legitimada por teorias dos curadores sobre seu significado,
ligando os trabalhos ao tema da exposição e até atribuindo a eles preocupações
sociais inexistentes. Os trabalhos são para o público uma fonte de diversão,
de sensações diferentes, mas não chegam a provocar muitas reflexões sobre
as metrópoles ou a sociedade, mesmo porque o principal tema da 25ª Bienal
é a própria arte contemporânea, assunto do qual o público entende muito
pouco.
A 25ª Bienal se figura como
uma exposição de arte esquizofrênica, porque há uma contradição dentro
de uma mega exposição dedicada exclusivamente à arte contemporânea, como
a 25ª Bienal de São Paulo: a exposição só é considerada um sucesso se
seu público atingir grandes números, mas adquire um significado apenas
para uma minoria que faz parte do “meio artístico”. Mas, apesar dessa
conclusão é preciso reconhecer a importância do evento para com o aumento
do interesse pelas artes plásticas por parte do público e também para
o reconhecimento dessa modalidade por este; mesmo que o contato entre
o grande público e a arte contemporânea seja limitado ele acontece apenas
dentro de mega exposições como a 25ª Bienal de São Paulo.
A conclusão da inexistência
de uma função social eficaz na 25ª Bienal de São Paulo levanta uma nova
questão: onde reside o problema, no artista e na obra ou no público? Quais
são as raízes deste descompasso entre espectador e obra de arte? É fácil
dizer que quem deve ser corrigido é o público, que a razão da obsolescência
das obras é o atraso cultural do deste e que, portanto, o problema deveria
ser resolvido pelo Estado incluindo nas escolas públicas uma educação
em arte ou por iniciativas privadas que promovessem eventos didáticos
sobre arte, tão abrangentes quanto a 25ª Bienal.
Mas o problema não está apenas
na falta de conhecimento do público, mas também na própria arte contemporânea.
A dificuldade da arte em adquirir uma função social provém de um desligamento
dela de seu contexto, um divórcio entre arte e sociedade, que é
conseqüência
da desinformação do público mas também do isolamento a que o próprio artista
se propõe em relação a este.
Artistas contemporâneos são,
na sua maioria, artistas de minorias, formalistas, preocupados em expressar
coisas originais e novas. Ao criar um trabalho de vanguarda, o artista
contemporâneo sente-se realizado e preocupa-se com questões relativas
apenas aos meios de expressão, os aspectos formais de sua obra, e se esquece
de examinar sua repercussão em meio ao grande público. Esse artista vê-se
convencido de que sua arte foi feita para todos, pois ao se afastar dela
e examiná-la como espectador consegue captar seu sentido e conclui que
esta se basta se comunica com qualquer espectador, mas suas pesquisas
de ordem formal não fizeram outra coisa a não ser vinculá-lo apenas às
suas própria idéias. Isso se torna um problema se o trabalho for ser exposto
a um público de fora do “meio artístico”.
Também há quem diga que munir
o objeto artístico de uma preocupação social é comprometer sua qualidade
plástica, sua beleza, com uma utilidade. Dentro dessa visão, a arte com
uma preocupação política seria desprezível em sua forma. Ou então há quem
diga que toda arte é sempre social pois quem a produz é o homem e, por
isso, automaticamente reflete seu contexto.
Mas o fato é que a arte contemporânea,
do ponto de vista do conteúdo, chegou quase em um ponto no qual ela existe
apenas a partir do que se fala sobre ela. A arte hoje corre o risco de
se tornar por inteiro propriedade das elites, uma arte apenas para iniciados.
Se, como disse Walter Benjamin, algum dia a obra de arte se livrou de
sua “aura” através de suas reproduções em larga escala destinadas às massas,
hoje, recupera essa “aura”, pois apesar de residir em mega
exposições e
estar disponível ao grande público, na verdade é alcançada apenas por
eruditos da arte, pois as obras falam de si mesmas, da sua forma, uma
linguagem completamente distante do grande público.
Para a produção de uma arte
imbuída de uma função social e que consiga transmitir com eficácia sua
mensagem, é necessário ter em mente o público a que se destina. O artista
deve superar o conflito entre a qualidade plástica e a comunicabilidade
da obra e tomar cuidado com a produção de obras de difícil acesso, alheias
à sua intenção política. É preciso estabelecer uma ponte entre linguagens
plásticas de vanguarda originais e elementos compreensíveis que identifiquem
o trabalho com o público, é preciso uma relação entre qualidade e popularidade,
sempre pensando que o fato de algo ser muito popular ou de fácil entendimento
não significa uma baixa qualidade - a cultura erudita não é superior.
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