RELATOS DE PACIENTES
· ADELINA
Quando era camponesa e tinha dezessete anos, Adelina se apaixonou por um homem casado, mas sendo reprimida por sua mãe, ela o abandona, não só a mãe proibiu o namoro como também a trancou dentro de casa. Adelina passou uns dias tristes e a família encarou como normal, porém este era apenas o início do processo de cisão com a realidade. A paciente reproduzia incansavelmente em seus desenhos sua mãe como um monstro e a transformação de uma mulher em vegetal. Em seu desenho de mulher vegetal observa-se semelhança ao mito de Daphne, uma ninfa que é transformada em planta por seu pai com a intenção de fugir do assédio do deus Apolo. Sem a mitologia não seria possível compreendê-la. Ao longo do processo psiquiátrico, Adelina superou a vivência da flor e passou a namorar outro interno, Carlos Pertius.
Pintura de guache sobre papel de Adelina Gomes em 1955, antes de iniciar o tratamento |
Vaso com flores naturais, pintura de Adelina ao final da terapia. |
· LÚCIO
Lúcio começou a freqüentar os ateliês de escultura do Museu de Imagens do Inconsciente a partir de 1948, produzindo figuras que remetiam a guerreiros mitológicos que segundo ele seriam os atores de sua luta interna entre o bem e o mal. O valor estético dos trabalhos de Lúcio desta fase atesta a lucidez da sua interpretação e a riqueza dos seus recursos criativos.
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| Esculturas de Lúcio mostrando os guerreiros produzidos antes da cirurgia |
Porém, em 1949 Lúcio foi submetido a uma leucotomia , e que era entendida como a forma de tratamento mais adequada para casos como o dele. Sua primeira produção após a intervenção mostra um cérebro humano dividido por uma serpente. As obras que foram realizadas nos anos subseqüentes eram expressivamente inferiores, caracterizando a demência cirurgicamente produzida.
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Escultura do cérebro dividido por uma serpente e uma escultura (realizados anos após a cirurgia) |
· FERNANDO
Fernando Diniz, um dos mais antigos freqüentadores dos ateliês, dizia ter mudado para o mundo das imagens, ter mudado a alma para outra coisa, dizia que as imagens tomam a alma da pessoa. Fernando foi internado no Centro Psiquiátrico Nacional em 1949 e viveu ali até a sua morte, em 1999. Suas obras iniciais eram rabiscos furiosos e revoltados que refletiam o estado de conturbação interna em que ele vivia. Então colocaram ao seu lado uma monitora, a jovem Aparecida, sua tarefa era apenas ficar ao lado de Fernando, silenciosa, numa atitude de interesse e simpatia por qualquer coisa que ele fizesse, sem intervir ou opinar sobre as pinturas.
| Tela de Fernando Diniz | Pintura de Fernando Diniz, óleo sobre papel. |
A presença do afeto funcionou como uma espécie de catalisador da cura. Fernando começou a sair do caos onde estava mergulhado e pouco a pouco figuras dotadas de significado foram aparecendo em suas telas. Como Aparecida tinha olhos ligeiramente orientais, o trabalho de Lúcio começou a mostrar figuras que claramente mostravam uma influência estética japonesa. A partir do relacionamento afetivo com a monitora, Fernando pôde organizar sua capacidade de expressão pessoal e artística estabelecendo um melhor contato com o mundo real.