DIFERENTES CONCEPÇÕES DE MÚSICA
A música, em algumas ocasiões, serve como estímulo. Por isso, muitas vezes uma pessoa ouve uma canção e se sente sintonizada com ela e consigo mesma, a música consegue colocá-la em harmonia consigo, mas se torna um pano de fundo, e serve de estímulo para esta pessoa, que agora se sente melhor e consegue trabalhar melhor.
Num filme, a música não é apenas um fundo, ela acompanha, comenta, descreve as diferentes situações. Mas é muito difícil encontrar alguém que se lembre da trilha sonora de um filme, porque ela limita-se apenas a reforçar a imagem e a fala, mas a imagem e a fala narram as cenas de modo mais claro e menos interpretativo, e a música passa para segundo plano.
Ao contrário, num concerto de música erudita, as pessoas assumem uma postura de escuta direta e imediata, concentrada exclusivamente na música. A música não serve para algo, ela é um fim em si mesma.
A música funciona como estímulo a comportamento em inúmeros casos. Depende do caráter das diversas músicas, mas o ambiente, o estado de ânimo e a vontade, o gosto e o conhecimento musical também influem muito. Os sons são muito ambíguos.
A música tem diversos níveis de sentido. Os sons são pensados pela mente como qualquer outra realidade: simples ou complexa, contínua ou descontínua, repetida, variada etc. Estes são os primeiros significados. A músicapode ser entendida em vários sentidos: códigos gerais de percepção, práticas sociais, técnicas musicais, estilo, obra etc. Mas isto não só quando escutamos concentradamente, mas também quando cantamos, tocamos, jogamos, dançamos, estudamos música. Somos capazes, com os sons, de produzir sentidos em diversos níveis.
P. Botelho, em seu livro Poética: ontologia da obra de arte, caracteriza a música como hieróglifo plenário, algo de difícil compreensão, quase ilegível, mas que é pleno, íntegro, cabal; é a arte que se apóia no material mais precárioe que só se realiza como energia, portanto a música traz consigo as mais ricas justaposições, oposições e mediações.
Há também duas concepções que são bastante significativas: arte de combinar sons para obter efeitos expressivos e arte de combinar som e silêncio (Stravinsky diz que ela consiste na ordenação de determinado número de sons, segundo certos intervalos, que permitem a criação da frase). Essas duas vertentes, ora se tocam, ora se afastam, a ponto de uma criar transformações na outra. Além disso, música pode ser definida como uma forma de arte que consiste de sequências de sons, principamente tons de altura definida, organizados melódica, harmônica e ritmicamente, e de acordo com o timbre.
Segundo Hegel, a música é a arte que tem maior possibilidade de se libertar de toda a expressão de um determinado conteúdo, para se contentar com uma simples sucessão de justaposições, modulações, contrastes e harmonia, e assim se encerrar nos limites do domínio puramente musical dos sons. Mas, nestas condições, a música permanece vazia e sem significado e, visto que lhe falta um dos principais elementos de qualquer arte, quer dizer, o conteúdo e expressão, não pode ser então ser colocada entre as artes propriamente ditas. Mas quando o elemento sensível dos sons serve para exprimir o espiritual de uma forma mais adequada, que a música se eleva ao nível duma verdadeira arte, sempre que este conteúdo for formulado mediante palavras ou libertado dos sons, das relações harmônicas e da melódica emoção.
Há música desde que o som se organize no tempo, mas que sons pode-se considerar música? É aqui que começa o arbitrário. Todos que produzem ruídos fazem música: pássaros, homens de todas as etnias existentes, o vento, o mar, mas não com os mesmos sons. No ocidente, por exemplo, o diatonismo prevalece, apesar de existirem muitas outras escalas, principalmente após o modernismo, que trouxe a escala atonal e a dodecafônica; no ocidente existem outras escalas, como a pentatônica e a cromática. Cada povo possui uma maneira de fazer e de escutar música, isso acompanha a formação, a cultura e a própria história de cada povo. Através da música uma sociedade expressa sentimentos de maneiras características, por isso cada cultura possui uma forma de expressá-los. A Igreja e a maioria dos povos do leste asiático são, historicamente, antipáticos ao cromatismo.
Merriam, um antropólogo cultural, caracteriza a música através da seguinte definição do som: "o som musical é o resultados de processos comportamentais humanos que são modelados pelos valores, atitudes e crenças das pessoas que compartilham uma determinada cultura. O som musical não pode ser produzido exceto por pessoas para outras pessoas, e, embora possamos separar os dois aspectos (o aspecto som e o aspecto cultural) conceitualmente, um não está realmente completo sem o outro. O comportamento humano produz música, mas o processo é contínuo; o comportamento é amoldado para produzir som musical e, assim, o estudo de um convergente para o outro".
Conclui-se disso que em qualquer tempo ou lugar, a música sempre será uma arte extremamente rica e difundida, apesar de carregar esse caráter de abstração em seu próprio conceito. Entender o que a música é ou representa, é tão importante quanto ouvi-la, e não faz com que a escuta se torne insignificante, mas atenciosa, e ajuda a fazer a música passar pelo exercício essencial de contextualizaçã, o que distancia todo o mal proporcionado pela ignorância.