CONTEMPORANEIDADE
Dizer que as obras-primas da música contemporânea são mais cerebrais e têm menos caráter sensível do que as tradicionais representa uma pura projeção da incapacidade de compreender. Os novos meios da música são o resultado do movimento imanente da música antiga, da qual se distingue também por um salto qualitativo.
Hegel diz que "através da arte temos como objeto, diante dos olhos sensíveis ou espirituais, algo tão completo que seu conteúdo se esgota e tudo se exterioriza sem que já nada permaneça de obscuro e interior, com o que desaparece o interesse absoluto".
A idéia das obras e de sua conexão deve ser construída filosoficamente, ainda que a custa de fazê-lo às vezes mais além do que se realiza na obra de arte. Este método descobre os elementos implícitos dos procedimentos técnicos e das obras. Segundo Adorno este é o "limite do procedimento imanente que, por sua vez, como em seu momento o procedimento hegeliano, já não encontra dogmaticamente nenhum apoio a transcendência positiva. Assim como seu objetivo, o conhecimento permanece ligado à contradição determinada".
Atualmente, uma série de novos movimentos convivem com práticas remanescentes da música do pós-guerra, destacam-se: a nova simplicidade, que visa uma estética da liberdade da arte, propondo uma música com ausência de dificuldades, livrando-se da carga histórica; a nova complexidade, que resgata a importância estrutural do serialismo integral, numa música que expressa a complexidade e multiplicidade do homem atual; a música espectral, que surge a partir do estudo de espectros sonoros de instrumentos e sons cotidianos com auxílio de recursos audiovisuais, como vídeo, teatro, dança etc.; e a computer-music, que utiliza recursos da informática na síntese sonora, nos cálculos de estruturas musicais e nas transformações de informação sonora, além de simulações diversas.
A separação entre música popular e erudita nunca foi tão explícita como nesse século; a primeira tenta manter sua posição de criação artística diferenciada e a segunda cada vez mais resume seu papel às funções lúdicas, fortemente marcadas por dimensões mercadológicas. Para os que têm a música erudita como base, a popular é inferior e degenerada; para os que têm a música popular como base, a erudita é algo desconectado da dinâmica de nosso tempo, é algo que não cria identidade nem encontra ressonância no gosto da maioria das pessoas. Vários compositores e intérpretes tentaram reproduzir na música esse século, o que a afastou de suas funções de entretenimento, que ficou a cargo da música popular, ou da canção. Mas o que é canção?
O canto se dá de diversas maneiras e tem diferentes funções. Cantar é um dizer, um fazer, mas também não dizer. É a ambigüidade do cantar, a polivalência dos cantos, o labirinto da canção. O canto é a confluência ou a síntese de três dimensões: a voz, a palavra, a música. A voz é a imagem sonora de uma pessoa; a palavra é um meio para se comunicar com os outros; a música pode ser diversas coisas: jogo, expressão, construção de objetos sonoros, representações etc. O resultado disso não é uma somatória nem produto aritmético, controlável. A canção é algo que leva a fala ao canto. Muitos desses percursos permanecem na música, como restos fossilizados, traços arcaicos. O canto gregoriano tem uma construção que avança através de versos curtos alternados, como nos salmos.
Hoje em dia, o sentido da música é diferente para cada situação, como numa discoteca, por exemplo. A discoteca é um lugar para dançar, encontrar os amigos, conhecer gente nova, passar uma noite diferente. Mesmo para quem não dança, a música cria a atmosfera do lugar. A música é indispensável, é a base. A disco-music cumpre bem a sua finalidade, que não é a de ser ouvida, mas a de fazer dançar, ou criar atmosfera. Um ritmo constante que se repete sem variações, uma batida martelante, cada golpe é perfeitamente previsível. A atenção está desobrigada de concentrar-se, pode-se preocupar com outras coisas.
Em outras ocasiões, como em concertos de música erudita, shows de rock, filmes, a música tem diversos sentidos e níveis de sentido. Ninguém vai a um show só para ouvir música ao vivo. A moderna tecnologia sem dúvida faz milagres no que se refere á fidelidade acústica. Mas o que interessa é ver quem está tocando. Diferentemente do que ocorre nos concertos de música erudita, o cantor de rock não é apenas o executante ou o intérprete de um trecho; é também um ator que deve saber comportar-se em cena e criar um espetáculo e só o ritual da música não garante que isso ocorra.
Um meio expressivo empresta seu próprio sentido a outro, que por sua vez o incorpora a sua maneira e o faz passar adiante, já transformado. O resultado é o polissentido. A situação mais clássica é aquela na qual um meio reforça o outro, permitindo que uma idéia seja expressa em vários modos, envolvendo mais de um sentido (ouvido, visão ), e, portanto, diversos mecanismos associativos, o que faz com que deixe uma marca mais forte.
Qualquer que seja nosso comportamento diante da música, de alguma maneira nos aproximamos dela. Cantando, assobiando estamos repetindo, mas também transformando, criando. Fazer música é importante para entender o que ela é. Devido a um certo tipo de mentalidade que exacerba o aspecto profissional e venera excessivamente a ordem artística vigente, há uma tendência a desacreditar e desencorajar os que mantêm uma relação "diletante" com o instrumento, debruçando-se sobre ele intuitivamente, sem grandes preocupações com o resultado e descuidando alegremente os preceitos básicos ensinados no conservatório. Na verdade é justamente o diletante que se encontra na feliz condição de poder comandar a sua maneira a relação com o instrumento.
Com o aumento da popularidade do jazz, os conjuntos, geralmente com cinco, seis ou sete integrantes, começaram a proliferar. Durante a era do swing alguns grupos apresentavam seções de metais e palhetas tocando umas com as outras sobre um ritmo constante, entraram em moda.
Embora alguns sustentem que o jazz já deixou de fazer parte da música popular por ter se tomado muito especializado, deve-se reconhecer sua poderosa influência sobre a música considerada mais popular. O rhythm and blues, derivado do blues, caracterizava-se por substituir a voz do solista por um grupo e, por sua vez deu origem na década de 60 e suas letras abordam temas atuais. A música country é o equivalente estadunidense das danças folclóricas européias de séculos anteriores. O jazz e o blues inspiraram o rock, que tem se firmado como a maior força da música popular da atualidade.
Em 1870 surge no Rio de Janeiro, um ritmo conhecido como choro. Inicialmente não se caracterizou como estilo musical, mas pela forma abrasileirada com que músicos da época tocavam ritmos estrangeiros como polca, tango e valsa. Eles utilizavam, entre outros instrumentos, violão, flauta, cavaquinho, bandolim e clarinete, que dão à música um aspecto sentimental, melancólico e "choroso". O termo Choro passa, então, a denominar o estilo. Influenciado por ritmos africanos, como o batuque e o lundu, sua principal característica é a improvisação instrumental, especialmente com violão e cavaquinho. A função de cada instrumento na música varia de acordo com o virtuosismo dos componentes do conjunto, que podem assumir o papel de solo, contraponto ou as duas coisas alternadamente. A partir de 1880, com a proliferação dos conjuntos de pau e corda - formados por dois violões de cordas e de aço, flauta e cavaquinho -, o Choro populariza-se nos salões de dança e nas festas da periferia carioca. No início do século 20, o Choro deixa de ser apenas instrumental e passa a ser cantado. Aproxima-se do maxixe e do samba e adquire um ritmo mais rápido, agitado e alegre, além de maior capacidade de improvisação. Surge o chorinho ou samba-choro, também conhecido como terno, por causa da delicadeza e sutileza de sua melodia.
Na década de 20, os guetos negros da Praça Onze, no Rio de Janeiro, começaram a dar forma, à base de percussão e de palmas, ao que viria a ser o gênero popular mais representativo da música popular brasileira: o samba, uma corruptela da palavra de origem africana "semba", que significa "umbigada" ou "união do baixo ventre" ou, "tristeza", "melancolia". A primeira gravação de que se tem notícia de um samba, Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, remonta ao ano de 1917. Vale lembrar, no entanto, que o pesquisador de música popular Almirante sempre tratou Donga como um impostor, que teria se apossado de uma criação coletiva das pessoas que freqüentavam o terreiro da Tia Ciata, uma das matriarcas negras moradoras da Praça Onze, que eram geralmente conhecidas como tias. Dizem os estudiosos que o samba feito até então era muito influenciado pelo maxixe em sua estrutura formal, só ganhando a estrutura com a qual viria a ser conhecido e apreciado nos anos seguintes quando entraram em cena Ismael Silva e o grupo de boêmios do bairro carioca do Estácio, do qual faziam parte seu parceiro Nílton Bastos, Rubem Barcelos, Bide, Baiaco, Brancura e Mano Edgar. Esse grupo também é responsável pela criação da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Deixa Falar (1928). A escola só desfilou em três carnavais, mas foi ela que inspirou Cartola, de um lado, e Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres, de outro, a criarem, respectivamente, a Mangueira e a Portela. O primeiro desfile de escolas de samba, realizado em 1929 na Praça Onze, foi ganho pela Portela. Em 1935, os desfiles foram oficializados. Nos anos 40 surgiram os sambas-enredo, samba cuja letra conta uma estória, ou enredo, que é o tema do desfile da escola. Para entender um pouco mais sobre esse estilo que tem a cara do Brasil, é interessante ler a obra Homenagem ao Malandro de Matheus Leston, estudante da Escola da Vila.
Durante os anos 60, ouve a explosão do rock. Os Beatles, a música dos jovens, a língua inglesa, que é a mais difundida no mundo, e por trás dela, a indústria da canção e do espetáculo, a mídia. Adolescentes dessa época se identificavam muito com baladas e músicas lentas, a época dos anos dourados. O que restou hoje dos Beatles: o símbolo, o exemplo de um mundo jovem criativo, como alternativa ao mundo velho e distorcido.
No início dos anos 70, o rock progressivo, de conjuntos britânicos como o Pink Floyd e o Genesis, introduziu ao cenário musical faixas de maior duração, harmonias mais avançadas e passagens de solos instrumentais mais complicados. Quase simultaneamente, explodiu na Inglaterra o punk rock, que representava o descontentamento da classe trabalhadora, como se pode notar nos cânticos contundentes, os Sex Pistols. Isso fez com que o público que gostava de rock se dividisse em: os que ouviam rock progressivo; os que ouviam punk rock; e os que começaram a ouvir outras coisas, como a disco-music.
Os anos 80 assistiram à crescente diferenciação de estilos e a um uso cada vez mais difundido de equipamentos eletrônicos. As equipes de produção também passaram a assumir papéis de influência cada vez maior dentro do processo da criação musical do rock.
Criado nos Estados Unidos, o rap (rhythm and poetry, ritmo e poesia em português) é um gênero musical nascido entre negros e caracterizado pelo ritmo acelerado e pela melodia bastante singular. As longas letras são quase recitadas e tratam, em geral, de questões cotidianas da comunidade negra e pobre, servindo-se muitas vezes das gírias correntes nos guetos das grandes cidades. Chegou ao Brasil na década de 80, mas somente na década seguinte ganhou espaço na indústria fonográfica, quando o primeiro disco do cantor Gabriel, o Pensador, vendeu quase 300 mil cópias.
Diz-se que o Rap surgiu na Jamaica mais ou menos na década de 60 quando surgiram os "Sound Systems", que eram colocados nas ruas dos guetos jamaicanos para animar bailes. Esses bailes serviam de fundo para o discurso dos "toasters", autênticos mestres de cerimônia que comentavam, nas suas intervenções, assuntos como a violência das favelas de Kingston e a situação política da Ilha, sem deixar de falar, é claro, de temas mais triviais, como sexo e drogas. No início da década de 70 muitos jovens jamaicanos foram obrigados a emigrar para os EUA, devido a uma crise econômica e social que se abateu sobre a ilha. E um em especial, o DJ jamaicano Kool Herc, introduziu em Nova Iorque a tradição dos "Sound Systems" e do canto falado, que se sofisticou com a invenção do scratch. O primeiro disco de Rap que se tem notícia, foi registrado em vinil e dirigido ao grande mercado (as gravações anteriores eram piratas) por volta de 1978, contendo a célebre "King Tim III" da banda Fatback. O Rap ascendeu e os MC's e DJ's formaram grupos. Em 1988 foi lançado o primeiro registro fonográfico de Rap Nacional, a coletânea "Hip-Hop Cultura de Rua" pela gravadora Eldorado. Desta coletânea participaram Thaide e DJ Hum, MC/DJ Jack, Código 13 e outros grupos iniciantes. Nesse período de ascensão do Rap, a capital paulista passou a ser governada por Luiza Erundina, uma prefeita petista, que muito auxiliou na divulgação do movimento Hip-Hop e na organização dos grupos. Por esse motivo foi criado em agosto de 1989 o MH2O - Movimento Hip-Hop. Organizado, por iniciativa e sugestão de Milton Salles, produtor do grupo Racionais MC's até 1995, o MH2O organizou e dividiu o movimento no Brasil. Ele definiu as posses, gangues e suas respectivas funções. Nesse trabalho de divulgação do Hip-Hop e organização de oficinas culturais para profissionalização dos novos integrantes, não se esquecer de citar a participação do músico de reggae Toninho Crespo. Este trabalho teve sua continuidade no município de Diadema com o profissionalismo de Sueli Chan (membro do MNU - Movimento Negro Unificado). Desde seu surgimento, nos anos 70, numa Nova Iorque violenta como nunca, o rap impôs a discussão de questão negra. Os Estados Unidos viviam então a ressaca de conflitos raciais que incluíram desde o pacífico movimento pelos direitos civis de Martin Luther King até a militância armada dos Panteras Negras. No Brasil, o debate se intensificou após a projeção do grupo americano Public Enemy, na segunda metade dos anos 80. Seus clipes mostraram um novo mundo de idéias para os rappers brasileiros. Grupos como Racionais e DMN admitem Chuck D & Cia. como influência maior. Os ícones Malcolm X e Martin Luther King tornaram-se leitura de cabeceira.
O rap nacional está associado à violência das grandes cidades, causada pela desigualdade social, como é possível ver na seguinte letra do grupo Facção Central, oriundo da violenta Zona Sul de São Paulo, do bairro do Grajaú.
DE ENCONTRO COM A MORTE -
FACÇÃO CENTRAL
Não acredito que eu cheguei nesse ponto,
Tô com o refém chorando em cima do seu filho morto.
Manchei de sangue o quadro de Picasso,
Fiz a torneira de ouro pingar lágrima no palácio.
No que foi que o crack me transformou,
Me estranhei dando soco na cabeça do doutor.
Fita dominada já catando os eletrodomésticos,
Pivete do caralho, gritou, morreu no meu reflexo.
Tiro à queima roupa, parou o coração,
Promovi um velório na suíte da mansão.
Doente pela pedra, apertei o gatilho da PT,
Mas nenhum jurado vai entender,
Nenhum juiz vai me absolver.
O pai grita "Por que não me matou no lugar dele?",
Vendo carne do filho colada na parede.
Enquadrei na intenção de dólar no cofre,
Não provi a vadia da mãe implorar pelo amor de Deus não morre.
Se arrepender não consta, o vizinho deu alarme,
Pro Morumbi veio o exército até a SWAT,
Pela janela já escuto a sirene dos lambe saco de boy,
Vindo na febre de mitra sonora o troféu do PM herói.
Se pá minha coroa vai ver no noticiário
Meu corpo metralhado e o resgate juntando os pedaços,
Vai lembrar que eu bati nela pra fumar a TV e o rádio,
Vai dar graças a Deus de me ver no caixão lacrado.
Sei que vou morrer, não posso fugir,
Sei que vou morrer, não posso fugir,
Sei que vou morrer, não posso fugir,
Só não quero mais moleque morrendo assim.
Eu era só outro moleque jogando bola,
Descalço fazendo gol na porta da escola,
Carente de incentivo de um espelho,
Hoje não tem aula o professor não veio.
Querendo brinquedo carinho de alguém,
Não, paulada na cara do monitor da FEBÉM.
Não queria um Rifle Fao aos 12 anos,
Eu não queria achar que o herói era o assaltante de banco,
Mas que cuzão que condena foi lá pra ensinar,
Aí moleque, a vitória só vem se estudar ou trabalhar,
Aí moleque não faz o que o sistema quer,
Não borbulha sua vida nessa porra de colher.
Pelo contrário, deram cachimbo,
Acionaram a contagem regressiva pro meu homicídio,
Derreti o meu tênis, relógio, jaqueta.
A diversão da sexta virou uma doença,
Agora oitão na padaria cala a boca tia,
Abre logo o caixa, traz minha cara de alegria.
Entrei no hall da fama, dos pedidos da polícia,
No papel veio bica, dei cinco na barriga.
Madrugada tem tiro, minha família vai tremer,
Dar busca em hospitais, IML, DP.
Meu irmão revoltado de ver minha mãe chorar,
Sonha com o juiz batendo o martelo pra me condenar.
Sei que vou morrer não posso fugir,
Sei que vou morrer não posso fugir,
Sei que vou morrer não posso fugir,
Só não quero mais moleque morrendo assim
O menino de olho azul não vai passear domingo,
O Playcenter foi deletado pelo meu cachimbo,
Que também roubou meu sonho de jogar no Pacaembu,
O crack perdeu pro crack no Grajaú.
O que que eu faço, acredito no negociador,
Ou mato logo todo mundo e me mato, morou?
Sem ilusão não tem colete nem carro,
Vão me matar na viatura asfixiado.
O Brasil não se comove se sou eu que peço passe,
Eu sou o ladrão doente ao boy na reportagem.
Aí moleque o crime é só desgraça,
Choro na cobertura, choro na sua casa.
Não dá futuro roubar um carro forte,
Não arrisque a sua vida pela porra do malote.
É triste saber que minha mãe não vou ver mais,
Nem beijar minha mina nem ouvir papai.
Quanto vale agora a merda desse cofre,
Rubi, diamante em troca da minha morte?
E o sistema dá o cachimbo pra beber seu sangue,
Pra te ver morrendo, BO, tentando pagar o traficante.
Meu coração de ódio queria paz, acredite!
Mas agora sou eu e o atirador de elite.
Tá a dez metros da janela e atira muito bem,
Vai matar a vítima do crack e seu refém.
O rap fala a língua da periferia, como se pode observar nesta música. Ela traz inúmeras gírias em seus versos e trata de temas existentes em grandes metrópoles, como o uso de drogas, o crime, a pobreza, a falta de educação, saúde e lazer para as comunidades pobres, a desvalorização da vida, a crise do sistema político-econômico-social capitalista, em contraste com a vida de uma família de classe média alta, que mora no Morumbi, tem quadros de pintores famosos na parede, tem condições de pagar ensino, saúde, lazer e se preocupa apenas com a segurança. Em suma, esta letra de rap trata do contraste entre a pobreza e a riqueza. Além disso, o rap traz um ritmo martelante ao fundo que é muito agressivo, assim como a forma de se cantar; isso é um reflexo da revolta desse povo oprimido.
O rap, o samba, o rock e o punk são reflexos da sociedade que os produziu, assim como toda a produção cultural, como já foi dito. É impossível analisar uma música esquecendo dos contextos a que ela se une. Alguns estilos musicais deixam essa relação mais explícita; é o caso do rap, em que fica muito clara a relação entre a música e o contexto social. Outros estilos, não deixam essa relação tão explícita, mas ela existe e é indispensável, pois é ela que diferencia um povo do outro, ainda mais em um mundo cada vez mais globalizado como o atual.
Se perguntarmos a uma pessoa qualquer na rua, certamente ela responderá que, apesar de não determinarem, as gravadoras têm uma influência muito grande sobre o gosto musical das pessoas. Esta é uma resposta absolutamente cabível. Mas por que isso ocorre? Para entender o que acontece com a música desse século é necessário entender o contexto a que ela está inserida, que é bastante particular.
Durante o século 20, ocorreram mudanças tanto na sintaxe (disposição das partes no todo) do discurso musical, quanto no papel que ela desempenha dentro da sociedade. Isso tudo criou uma certa distância entre a música produzida nesse século e seus ouvintes contemporâneos. Em todos os outros períodos históricos a música que se ouvia era música que se produzia naquela mesma época. Atualmente, com o surgimento dos meios de gravação, as músicas antigas passaram a ser mais difundidas, a música do passado se tornou a música do presente. Mas hoje em dia as pessoas vão muito pouco a concertos ou a shows, como foi constatado a partir da entrevista realizada, como iam no século 18, por exemplo. As pessoas não precisam ir até a música, pois ela vai até o ouvinte. Mas isso faz com que o ouvinte se torne uma espécie de colecionador que conhece, não a música, mas fragmentos dela. Por isso hoje, as pessoas são capazes de assobiar ou de cantar trechos de músicas que ouvem no rádio, mas cada vez menos têm tempo e iniciativa de realizar uma escuta atenta e imersiva. Além disso, deixam de fazer o exercício essencial para a compreensão de qualquer produto cultural, o de contextualização. As rádios tocam sempre as mesmas músicas, pois cobram jabá das gravadoras e são obrigadas a tocá-las. O ouvinte de hoje é quase forcado a ouvir sempre as mesmas coisas em todos os lugares que vai. Qualquer loja de CD's apresenta músicas de diferentes tempos e lugares lado a lado sob rótulos como Música Clássica ou World Music. A música popular se tornou um fenômeno de mercado por sua rápida difusão em todas as camadas sociais e seu aproveitamento em qualquer contexto cultural.