RELATO DAS VISITAS

Teoria: ECA


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A partir de análise e cruzamento de dados estatísticos sobre a situação da educação e da saúde e também sobre a distribuição de renda nos vários distritos do município de São Paulo, foi possível contastar que Pinheiros e Marsilac são dois extremos: o primeiro distrito traz uma situação melhor, com mais estabelecimentos nessas áreas e com uma população de maior renda; enquanto isso, o segundo apresenta um número menor - ou nulo, em alguns casos - de estabelecimentos de saúde e educação, além de uma baixíssima renda per capita.

Visita a Marsilac

Na ida ao distrito de Marsilac, ocorrida no dia 7 de agosto de 2002, foi visitada a escola Professor Hilton Reis Santos, localizada na Rua Estação Engenheiro Marsilac, no bairro de Embuia. O estabelecimento atende cerca de 1000 alunos e, nos últimos três anos, passou a trabalhar, além do Ensino Fundamental, com o Ensino Médio.

Fachada da escola Professor Hilton Reis Santos

Após algumas dificuldades na autorização para a realização de entrevistas e visita ao espaço físico, essa foi concedida (porém, não foi possível conseguirmos tirar fotos do interior do local e dos entrevistados). Em entrevista com a Vice-Diretora, chamada Eda, foi possível obter algumas informações sobre a escola. Eda, que trabalha na escola como professora há 12 anos e, nesse ano, passou a ocupar o cargo de Vice-Diretora, elogia a Diretora e a qualidade da escola. Diz que a verba destinada pelo Governo do Estado não é suficiente, mas "dá para ir levando, a escola está precisando de uma reforma, esse tipo de coisa não dá para fazer [com a verba destinada]", diz. Conta que um grande problema é a falta de espaço físico e mostra, nos fundos da escola, "classes provisórias permanentes", termo que ela própria utiliza. Também em relação à infra-estrutura e aos equipamentos, diz que a escola possui retroprogetor, karaokê, xerox, computadores (embora não haja uma sala de computação para os alunos; esses computadores são para uso apenas de direção, secretaria e professores). Ao ser questionada sobre a existência de um grêmio estudantil na escola, ela diz que não existe um por falta de estrutura e preparo tanto dos professores, quanto dos alunos. Em relação à questão das vagas, diz não ter conhecimento de crianças e adolescentes de Marsilac fora da escola. Fala que as classes estão cheias e que o único problema referente às vagas são alunos de outros distritos e municípios, que tentam estudar lá e que, por falta de vagas não são atendidos.

Foram entrevistadas também duas alunas (escolhidas pela Vice-Diretora), estudantes da 7ª série do Ensino Fundamental: Vânia, 15 anos, que entrou na escola há três anos, após fazer o reforço oferecido pela escola, e Bruna, 14 anos, que foi transferida há dois anos. Ambas dizem gostar da escola e falam que estudam porque querem, e não porque são obrigadas. Quando foi perguntado se elas conhecem o Estatuto da Criança e do Adolescente, elas disseram que não.

Não foram encontrados, em Marsilac, hospitais para a realização de visitas e entrevistas.

Visita a Pinheiros

Em visita ao distrito de Pinheiros, foi possível conhecer a Escola Godofredo Furtado, na Rua João Moura, 727, no bairro de Pinheiros. O estabelecimento atende cerca de 1085 alunos entre o Ensino Fundamental e Ensino Médio, dividido em três períodos (manhã, tarde e noite).

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Fachada da escola Godofredo Furtado

Quem nos atendeu foi Heloísa Madela, coordenadora pedagógica de toda a escola, que passou a ocupar esse cargo em maio de 2002, após dar aula de história na escola por alguns anos. Ela avalia positivamente a parte pedagógica e os equipamentos da escola, mas negativamente o espaço físico. Em relação a isso, é possível identificarmos uma construção antiga (o prédio foi construído em 1929), pichada, com locais sem tinta. Heloísa diz que há a necessidade de uma reforma e que estão aguardando verba do Governo para tal – que já está sendo disponibilizada. Entre os problemas elencados pela coordenadora, há a questão da indisciplina e agitação dos alunos, na qual se insere a pichação (por parte dos alunos). Ela afirma que os professores têm recursos, espaço e apoio o suficiente para desenvolver seus trabalhos e elogia a qualidade da equipe de professores.

Alunos de Ensino Fundamental brincando no pátio da escola

Em relação à questão das vagas, ela diz que às vezes há falta, mas é muito raro. Ressalta a questão da migração de bairros ou municípios: casos de pessoas que mudam para outros lugares e saem da escola, gerando uma vaga, que pode ser ocupada por alguém que veio de outro local para estudar lá.Uma questão de grande importância nessa visita é sobre o público que freqüenta a escola, uma vez que este é um estabelecimento público, gratuito, e a população do distrito de Pinheiros tem, em média, uma boa condição financeira, o que as faria procurar escola particulares. Essa contradição foi colocada à Heloísa, que colocou algumas explicações para isso. Um dos casos seriam aqueles que realmente moram no bairro; outros têm pais trabalhando na região e deixam os filhos na escola, perto de seu local de trabalho, e os busca no final do expediente; e há também casos de pessoas que tinham uma condição financeira boa e não têm mais (estudavam em escolas particulares e foram para as públicas); ou, ainda, alunos de escolas particulares que estudavam em escolas particulares, repetiram o ano e os pais os colocaram em escola pública, por se recusarem a pagar escola particular novamente.

Alunos brincando no pátio, na hora do intervalo

Um dos professores entrevistados, Eduardo, que é formado em física mas está dando aula de matemática a apenas um mês (é recém-formado), tem algumas sérias críticas tanto à escola, quanto ao sistema educacional de São Paulo. Devido à questão da progressão continuada - tema muito discutido atualmente em que, resumidamente, não há a reprovação para alunos de escolas públicas - as classes são absurdamente heterogêneas, o que dificulta muito o andamento das aulas: "eu entro numa sala de aula, detecto muitos problemas, as pessoas falam que a culpa é dos professores, mas estes não tem muito o que fazer. Numa classe de 6ª série, por exemplo, existem alunos que não são alfabetizados ou não sabem contar... há um problema na base", diz. Além disso, também em crítica à progressão continuada, conta que, por não haver a opção de fracasso (reprovação), o aluno não tem responsabilidade e nem respeito: "vai à aula e fica olhando, conversando, nem abre um caderno, não tá nem aí", conta.

Um hospital no distrito foi contatado, mas não foi permitida a visita com a finalidade que pretendíamos.