Entrevista
Particular
A coordenadora do ensino
fundamental de uma escola particular diz sobre o assunto: A
ortografia é uma construção que as crianças fazem, elas
também precisam compreender quais são as normas que regem o
sistema de escrita. Na prática tradicional, as crianças
memorizam regras, escrevem pouco para errarem pouco e aprendem
estas regras como técnica. As crianças se preocupam cada vez
mais com a escrita correta e a possibilidade delas saberem que
existe uma forma correta de escrever, uma forma convencional de
escrever as palavras, de pontuar o texto, acredita-se que isso
vai acontecendo ao mesmo tempo que as crianças vão ampliando a
experiência leitora e escritora delas.
Houve um tempo que a
escola acreditava que um bom texto é aquele que traz uma boa
organização das idéias, e se esse texto tinha muitos erros
ortográficos ou não, isso não era muito discutido, o que era
mais importante era que as crianças fossem inventivas, que
tivessem boas idéias, se preocupassem em escrever essas idéias
da melhor maneira, e hoje se acredita que não, que um bom texto
é um texto inventivo e que tenha uma preocupação nesse
sentido, mas é também um texto no qual as crianças
progressivamente possam ir se dando conta das regularidades e das
irregularidades que se têm no sistema de escrita.
Nem tudo pode
ser tratado como regra, uma vez que existem palavras que são
escritas de determinada maneira porque se convencionou assim e
existem outras palavras que estão relacionadas a alguma regra.
Este é um trabalho de análise dessa linguagem, então é
possível apresentar um trecho de um texto no qual as crianças
possam identificar essas regras. Normalmente os professores de
ensino fundamental mapeiam e levantam quais são as ocorrências
ortográficas que as crianças apresentam mais em seus textos,
pois faltam recursos para decidir quando deve ser usado
u ou l, por exemplo. Depois que o
professor fizer esse levantamento ele poderá preparar uma
seqüência de atividades voltada para que as crianças possam
discutir quando se usa cada uma dessas letras, montar uma regra
que pode ser uma regra provisória, que não é tirada do livro
didático, é uma regra construída pelo grupo que vai sendo
validada à medida que a circulação de uso se coloca, então
desde trazer um trecho de música, ou a discussão de um trecho,
ou a revisão coletiva de um texto ou de uma história que todos
fizeram, pode dar para as crianças pistas e recursos em que o
professor vai entrando como um membro da comunidade alfabetizada
mais maduro e que ele vai, na verdade, aproximando as crianças
dessas regularidades. Quando os alunos são muito pequenas, como
na primeira e na segunda série, são feitas muitas revisões
coletivas, e acredita-se que o ganho maior disso é as crianças
entenderem que um texto nunca está pronto logo de primeira.
Faz
parte do escrever e do escrever bem voltar a esse texto várias
vezes para que eles possam melhorar. Para uma pessoa com mais
conhecimento da língua escrita é possível fazer isso enquanto
escreve, mas quando são muito pequenos, eles tem tantas coisas
para decidir, por exemplo, que letra colocar, que letra vem antes
e que letra vem depois, a personagem que aparece agora, se a
personagem morre ou não, que normalmente as idéias ligadas à
ortografia podem ser deixados de lado, então é feito um
exercício de revisão desse texto,pode-se pegar um texto
emprestado de uma criança e conversar com ela sobre aquele
texto. O que acontece é que nos outros textos que eles começam
a produzir eles incorporam essas coisas que foram ditas. Porque
uma coisa é um aluno de ensino médio escrever um texto, e ler o
seu texto para tentar melhorar, como já tem uma experiência
leitora e escritora, pode olhar e falar: é mesmo, aqui falta tal
palavra, aqui eu posso acrescentar um trecho, aqui está faltando
um pedaço. Mas para as crianças muito pequenas, é muito
difícil olhar o que pode melhorar, ou então, revisar o texto,
ou ler e dizer o que falta, eles estão tão colados ainda ao
papel de escritor, que eles não conseguem ter esse
distanciamento do texto , então acham que não falta nada.
As
pessoas se envolvem mais no próprio texto do que nos conteúdos
da gramática e nas regras. Há também uma dificuldade de se
colocar no papel de leitor, eles ainda estão muito no papel de
escritor, se passam alguns dias e elas voltam a ler aquele mesmo
texto, mas já como leitoras, e conseguem identificar coisas que
elas não tinham identificado há dois dias atrás, ou um mês.
Uma coisa que é feita é que no começo do ano, na primeira
série, eles escrevem um texto, e no final do ano eles voltam a
ler esse primeiro texto que escreveram. Eles olham e dizem:
não fui eu que escrevi esse texto, imagine, está faltando
tanta coisa... Porque têm uma dificuldade de observar todo
esse processo. Nesse trabalho de ortografia, é definido o que
vai trabalhar em função da série e da experiência, existem
algumas ocorrências que as crianças, que são escritoras
discentes, costumam apresentar com uma certa regularidade, mas
sempre é trabalhado em função desse levantamento que os
professores fazem. Alguns conteúdos são inseridos na primeira
série e re-significados nas séries seguintes. Não há como
ensinar regras que não existem, nesses casos o corpo docente
sempre informa. Acredita-se que para as crianças aprenderem
ortografia, quanto mais dúvidas elas tiverem, melhor. É um
problema a pessoa que escreve sem certeza e não tira dúvidas.
É importante que as crianças sempre perguntem como se escreve
determinadas palavras. Ao depender do ensino essas dúvidas
acabam, e quando elas acabam, as crianças deixam de se
interessar pela escrita correta, ou elas querem aprender pela
técnica, que nem sempre é significativa, ou elas desistem, e
variam no modo de escrever uma mesma palavra. As crianças
geralmente escrevem como elas falam, porque no nosso idioma há
muitas letras que representam a mesma fonética. Há um
currículo de ortografia que é definido por série, quais são
as ocorrências que a gente vai passar a tratar. Nosso principal
objetivo é que as crianças tenham uma atitude ou construam uma
atitude de revisor, ao mesmo tempo que elas vão avançando na
escolaridade, elas tenham cada vez mais recursos para fazer essas
decisões ortográficas.