"A CRIANÇA E A TEVÊ"

"Como os pais devem intermediar a relação da criança com a tv?"

Rafael Nogueira Tosta

Conseqüências para a formação da personalidade

Segundo o orientador educacional Armando Tambelli, é na faixa etária de 0 à 6 anos que ocorre grande parte da formação da personalidade das pessoas. 
Nesta etapa de crescimento existe uma grande angústia de realização, em que a criança acha que o que ela quer tem que se realizar, e é na ficção dos programas infantis, que as crianças buscam estas realizações e provém destes, dentre outras, duas sérias conseqüências à formação da personalidade. O primeiro foi relatado pelo próprio Armando Tambelli e o segundo por Raquel Soifer em seu livro: A criança e a TV.
O primeiro se dá quando produtores de programas infantis, que por estudar e conhecer esta faixa etária, invadem a angústia de realização das crianças e através de programas, aparentemente ingênuos, criam um modelo de cultura que se enquadra em interesses de ordem maior.
Geralmente, os programas assistidos são de origem externa, portanto, revelam um modelo diferente de cultura e, conseqüentemente, fora dos padrões e interesses de cada família. Então esses programas além de incentivarem o consumo de bens, também fora da cultura de cada nação, transformando uma geração inteira de diversos países em classes transnacionalizadas; fazem com que, cada vez mais as nações percam suas características.


Para Raquel Soifer as seqüências dos desenhos animados, cujos personagens as crianças tendem a imitar desde cedo, não apresentam ralação com a vida cotidiana e, portanto, mantêm-nas distanciadas de seu mundo real. O grande problema é que em lugar de programas educativos, estes personagens se destacam por sua astúcia cruel, sua imoralidade e sua maldade; e Zélia Cavalcanti complementa dizendo que na televisão, da mesma forma que nesses casos,

O 'bem' também mata e é violento e, logicamente, tendo seus atos justificados, prejudicam e confundem a cabeça das crianças.O fato citado a cima se agrava pois, conforme relata Soifer, os supostos heróis de programas apresentados diariamente na televisão que têm estado mais em moda acentuam a tendência infantil à imitação. Além do que estes personagens apresentam a extravagância, a onipotência e a onisciência que são os mecanismos do narcisismo que se opõem a necessidade de conhecer e aprender. 
Portanto, existe, nestas crianças, um predomínio da situação narcisista além da idade em que deve retroceder e ser substituída pela capacidade de amor pelos outros. No final do capítulo Influência da TV no desenvolvimento mental das crianças Raquel conclui:" Por este motivo, a personalidade das crianças que vêem televisão com muita freqüência e desde os primeiros meses de vida apresenta as características do estado narcisista, ou seja, o egoísmo, o egocentrismo, o despotismo e a tirania. São crianças caprichosas, impulsivas, desrespeitosas, inclusive daninhas, nas quais se pode observar condutas maliciosas semelhantes as que vêem na televisão. Sua idéia sobre as relações humanas é esta: os outros encontram-se aí para servi-los e dar-lhes o que pedirem; eles, de sua parte, não estão obrigados a nada.
A televisão também afeta a educação transmitida pelos pais, que está destinada em geral, ao cuidado com a própria vida, ao desenvolvimento intelectual, à capacitação para o trabalho e para a vida em sociedade.

Inclui os cuidados de higiene (alimentação, roupa, limpeza, saúde em geral), a contenção de impulsos destrutivos e de emoções irracionais, (como a inveja e o ciúme), o desenvolvimento de sentimentos que permitam a convivência (amor, compreensão, tolerância, solidariedade), a aquisição de atitudes físicas e mentais.Resumindo, a família cujo entretenimento preferido é assistir televisão cumpre suas funções de forma muito deficiente. Como conseqüência disto, os filhos crescem com sérias falhas intelectuais, morais e de personalidade, uma vez que se encontram restringidos em sua capacidade escolar, social e sentimental.

Fica claro que uma criança exposta à TV, por muitas horas ao dia durante toda sua infância não terá uma vida de boas relações sociais, e portanto, de certa forma, estará excluída, ou terá reduzida as possibilidades que o mundo oferece.