"Como os pais devem intermediar a relação da criança com a tv?"
Conseqüências da
exposição à TV no desenvolvimento mental
Para entendermos as conseqüências da exposição à televisão,
é necessário, primeiro, entender o que faz com que milhões de
pessoas assistam por horas este tipo de mídia.
Quando assistimos a um espetáculo televisivo estamos expostos a
um fenômeno chamado Identificação Projetiva, que nos permite
imaginar que entramos no outro e sentimos o mesmo que ele, ao
mesmo tempo nos induzindo a crer que somos o outro que está na
tela. O conjunto de sensações originadas em tais
circunstâncias culmina o fenômeno da cartase, palavra grega que
designa o processo de dar razão as emoções contidas, isto é,
reprimidas. A identificação projetiva e a cartase, proporcionam
o mesmo valor afetivo e benefício parecido com o dos sonhos, no
ato de dormir, pois constituem um veículo para a descarga das
tensões inconscientes, com a qual se obtém o correspondente
alívio psíquico.
Isso ocorre com todas as idades, mas é agravado no caso das
crianças que, conforme relatado pelo orientador Armando, devido
a etapa de crescimento têm uma angústia de realização, e a
não possibilidade de realizar tudo que bem entendem no mundo
real, faz com que estas busquem na ficção o alívio causado
pela identificação projetiva.
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Porém esse alívio e satisfação causado por este evento faz com que, principalmente, crianças passem muito tempo em frente a TV. Porém durante o sonho ocorre um descanso fisiológico, que se agrega ao mental, enquanto que nos espetáculos a regressão é menor. Mesmo assim essa regressão não deixa de causar imobilidade, bloqueio na capacidade de pensar e condiciona atitudes de submissão, como descreve Raquel Soifer em seu livro. |
A grande exposição a
espetáculos televisivos, induzido pela identificação
projetiva, é que causam sérias conseqüências ao
desenvolvimento mental. Primeiro, pois o bebê e a criança
enquanto permanecem sentados assistindo televisão se encontram
impedidos de utilizar outros mecanismos mentais como a
introjeção, a sublimação e a reflexão o que diminui as
possibilidades de crescimento intelectual.
Além disso uma mente em formação é seriamente prejudicada
quando recebe os diferentes elementos existentes na projeção
televisiva como as imagens e os sons. A criança pequena
necessita que as imagens que lhes são apresentadas sejam de
forma contínua e com certa regularidade e permanência a fim de
poder registrá-las, e o caráter fugaz e diluído das imagens
causa uma dificuldade na construção das imagens na memória, o
que origina uma dispersão caótica de grande prejuízo, pois
dificulta a organização da função intelectual e geralmente a
organização do eu, como explicita Raquel Soifer. Já com
relação aos sons o grande problema é com relação a
formação da linguagem. Esta depende da comunicação verbal que
os pais e os demais integrantes da família estabelecem com o
bebê. "A constância na percepção das palavras dos outros
vai instalando o símbolo e, com ele, a linguagem". "a
série de ruídos desconexos (disparos, explosões, desabamentos,
exclamações, etc.), abundantes nos chamados programas infantis
(e nos não-infantis), ocasionam uma perturbação séria da
atenção acústica, que deste modo não pode desenvolver a
capacidade de distinguir adequadamente os sons e, por fim, de
compreender as palavras."
A criança incorpora os ruídos da TV ao inconsciente porém não
consegue distingui-los, e agrega a desorganização originada na
mescla confusa das imagens. E isto causa nas crianças uma demora
para adquirir a linguagem, e se finalmente conseguem aprender a
falar, o fazem de forma muito deficiente.
Como conseqüência disso tudo a autora Raquel Soifer revela em
seu livro que,"A identificação projetiva favorece a
persistência da imitação e, portanto, limita as possibilidades
de aprendizagem por identificação. Conseqüentemente, entre as
crianças que assistem televisão de forma prolongada e diária,
e que o fazem desde os primeiros meses de vida, uma alta
percentagem apresenta dificuldades escolares bastantes sérias.
Isto se deve à deficiente organização intelectual, tanto no
que diz respeito a atenção, que é dispersa, como a
concentração, a memória e a reprodução. A disgrafia
(dificuldades ortográficas), a dislexia (problemas na leitura),
a discalculia (perturbação nas operações aritméticas)
constituem transtornos comuns nestes casos".
Outro problema originado pela televisão é a imobilidade causada pela permanência em frente ao televisor, pois o tempo que a criança pequena passa nessa atividade subtrai de outras atividades que oferecem maiores possibilidade de crescimento físico e mental, como brincar, colaborar em casa, fazer esportes, etc. E essa temática me remete a entrevista realizada com a professora de filosofia da Escola da Vila, Wania Tieppo, que nos diz: "crianças, principalmente de 0 aos 6 anos, têm de ver o mundo como ele é e não distorcido pela televisão, elas têm que ver a areia, as folhas, seguir a trilha das formigas e descobrir que existem mais pernas no mundo do que as dos próprios pais...". Todas essas atividades implicam em atos que deixam marcas na memória e constituem a experiência necessária à vida, fato este que não se produz com programas e propagandas de televisão. |
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