"A CRIANÇA E A TEVÊ"

"Como os pais devem intermediar a relação da criança com a tv?"

Rafael Nogueira Tosta


Conseqüências da exposição à TV no desenvolvimento mental

Para entendermos as conseqüências da exposição à televisão, é necessário, primeiro, entender o que faz com que milhões de pessoas assistam por horas este tipo de mídia.
Quando assistimos a um espetáculo televisivo estamos expostos a um fenômeno chamado Identificação Projetiva, que nos permite imaginar que entramos no outro e sentimos o mesmo que ele, ao mesmo tempo nos induzindo a crer que somos o outro que está na tela. O conjunto de sensações originadas em tais circunstâncias culmina o fenômeno da cartase, palavra grega que designa o processo de dar razão as emoções contidas, isto é, reprimidas. A identificação projetiva e a cartase, proporcionam o mesmo valor afetivo e benefício parecido com o dos sonhos, no ato de dormir, pois constituem um veículo para a descarga das tensões inconscientes, com a qual se obtém o correspondente alívio psíquico.
Isso ocorre com todas as idades, mas é agravado no caso das crianças que, conforme relatado pelo orientador Armando, devido a etapa de crescimento têm uma angústia de realização, e a não possibilidade de realizar tudo que bem entendem no mundo real, faz com que estas busquem na ficção o alívio causado pela identificação projetiva.

Porém esse alívio e satisfação causado por este evento faz com que, principalmente, crianças passem muito tempo em frente a TV. Porém durante o sonho ocorre um descanso fisiológico, que se agrega ao mental, enquanto que nos espetáculos a regressão é menor. Mesmo assim essa regressão não deixa de causar imobilidade, bloqueio na capacidade de pensar e condiciona atitudes de submissão, como descreve Raquel Soifer em seu livro.

A grande exposição a espetáculos televisivos, induzido pela identificação projetiva, é que causam sérias conseqüências ao desenvolvimento mental. Primeiro, pois o bebê e a criança enquanto permanecem sentados assistindo televisão se encontram impedidos de utilizar outros mecanismos mentais como a introjeção, a sublimação e a reflexão o que diminui as possibilidades de crescimento intelectual.
Além disso uma mente em formação é seriamente prejudicada quando recebe os diferentes elementos existentes na projeção televisiva como as imagens e os sons. A criança pequena necessita que as imagens que lhes são apresentadas sejam de forma contínua e com certa regularidade e permanência a fim de poder registrá-las, e o caráter fugaz e diluído das imagens causa uma dificuldade na construção das imagens na memória, o que origina uma dispersão caótica de grande prejuízo, pois dificulta a organização da função intelectual e geralmente a organização do eu, como explicita Raquel Soifer. Já com relação aos sons o grande problema é com relação a formação da linguagem. Esta depende da comunicação verbal que os pais e os demais integrantes da família estabelecem com o bebê. "A constância na percepção das palavras dos outros vai instalando o símbolo e, com ele, a linguagem". "a série de ruídos desconexos (disparos, explosões, desabamentos, exclamações, etc.), abundantes nos chamados programas infantis (e nos não-infantis), ocasionam uma perturbação séria da atenção acústica, que deste modo não pode desenvolver a capacidade de distinguir adequadamente os sons e, por fim, de compreender as palavras."
A criança incorpora os ruídos da TV ao inconsciente porém não consegue distingui-los, e agrega a desorganização originada na mescla confusa das imagens. E isto causa nas crianças uma demora para adquirir a linguagem, e se finalmente conseguem aprender a falar, o fazem de forma muito deficiente.
Como conseqüência disso tudo a autora Raquel Soifer revela em seu livro que,"A identificação projetiva favorece a persistência da imitação e, portanto, limita as possibilidades de aprendizagem por identificação. Conseqüentemente, entre as crianças que assistem televisão de forma prolongada e diária, e que o fazem desde os primeiros meses de vida, uma alta percentagem apresenta dificuldades escolares bastantes sérias. Isto se deve à deficiente organização intelectual, tanto no que diz respeito a atenção, que é dispersa, como a concentração, a memória e a reprodução. A disgrafia (dificuldades ortográficas), a dislexia (problemas na leitura), a discalculia (perturbação nas operações aritméticas) constituem transtornos comuns nestes casos".

Outro problema originado pela televisão é a imobilidade causada pela permanência em frente ao televisor, pois o tempo que a criança pequena passa nessa atividade subtrai de outras atividades que oferecem maiores possibilidade de crescimento físico e mental, como brincar, colaborar em casa, fazer esportes, etc. E essa temática me remete a entrevista realizada com a professora de filosofia da Escola da Vila, Wania Tieppo, que nos diz: "crianças, principalmente de 0 aos 6 anos, têm de ver o mundo como ele é e não distorcido pela televisão, elas têm que ver a areia, as folhas, seguir a trilha das formigas e descobrir que existem mais pernas no mundo do que as dos próprios pais...". Todas essas atividades implicam em atos que deixam marcas na memória e constituem a experiência necessária à vida, fato este que não se produz com programas e propagandas de televisão.